Encontro com Fadas


(c) Isabel Aguirre
 wonderflight (c)



                        Saiu de algum lugar que não existe, nem nunca existiu.  E só eu ousei
          tocar e ouvir essa doce voz repetindo uma e outra vez:

                           "Pendure seu coração em um cometa e deixe voar..."


 
 
 
 
 
 

                        Na escuridão do bosque, suspendi a tocha, iluminando com luz trêmula
          e débil parte de mim. Acreditei ver pequenas figuras fugazes movendo-se entre as
          folhagens das árvores, escondendo-se entre as ramas dos arbustos com espinhos,
          debaixo dos cogumelos. Eu vi!... Um resplendor azulado desceu do céu. E entre as
          árvores, estava aquela criatura de pele branca e transparente, pálida como a
          imagem da lua refletida nas águas de um lago calmo.  Era de uma beleza sem fim.

                          Um perfume estranho de frutas silvestres se desprendia desse ser,
          inundando a atmosfera do bosque úmido. A luz da Cheia iluminou o centro do
          círculo de cogumelos onde o espectro foi pousar. Agitava suas asas azuis
          semi-transparentes sem cessar... De repente, uma neblina igualmente branca, mas
          espessa, flutuando solta no vale, subiu ao bosque, penetrou dentro do círculo,
          inundou e desfigurou o ser e chegou até mim.

                          Sonhos de neblina assim me invadiram, entorpecendo minha mente,
          aprisionando minh'alma.  E num delírio de êxtase, vi a escuridão dos tempos sem
          princípio nem fim, sombras que não logro alcançar. Desesperada, começei a
          perseguir o tempo que nem por um momento fez menção de parar... Olhei para o
          meu relógio sem ponteiros escondendo o verdadeiro tempo, sem revelar-me hora,
          dia ou ano deste meu momento, eterno e agora.

                          As figuras moviam-se como relâmpagos -- e eu queria vê-las com
          nitidez. Me aproximei lentamente, mas tudo o que eu recordo são sonhos,
          fragmentos de sonhos nebulosos que sempre retornam quando fecho meus olhos.
          Em cada noite, eu vivo outras vidas e, a cada segundo, quando vou desfalecendo,
          vivo noutro mundo, outros momentos sem saber de quem são. Quando adormeço,
          pode ser primavera ou outono, o sonho retorna... E carrego comigo um punhal que
          uso para rasgar a parede de vidro colorido, onde meu rosto se reflete  e meu corpo
          me vem com formas de adulterada beleza.

                       Entretanto, toda vez que desperto, o sonho se dissipa, volto a ser quem
          fui e agora sou.  Ao acordar, tenho a vista fraca e cansada,  já não vejo mais nada.
          Apenas murmuro palavras desconexas e desconhecidas que saem  ..........expontaneamente de meus lábios. 

                       Existe alguma coisa no bosque que grita e me atrai.  Não consigo resistir
          e para lá me dirijo todas as noites...  Sinto que o bosque morre e não consigo parar
          o seu sofrimento.  Quando eu estou ali, ouço a canção mais doce que é som do
          silêncio feito de vento brincando nas folhas das árvores. Outrora eu jamais ouvi o
          som que é silêncio cristalino.

                        Assim, flutuando, vejo os meus pés que nunca tocam o chão.  Numa
          floresta de duendes, tento escolher um príncipe e beijá-lo,  mas ele esconde seu
          rosto ora entre árvores, ora imerso em neblina --  não logro alcançá-lo! E mesmo
          sem rosto, o príncipe se aproxima e me entrega uma vela que queima e se derrete
          em minhas mãos, transformando-se em um anel de ouro líquido. Quando tento
          colocar o anel em meu dedo, desperto e o sonho novamente se desfaz... E a cada
          noite, retorno ao mesmo sonho e vivo uma nova vida e estou em um lugar que não
          existe e nem nunca jamais existiu.

Isabel Aguirre
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