Saiu de algum lugar que não existe,
nem nunca existiu. E só eu ousei
tocar e ouvir essa doce voz repetindo uma e outra vez:
"Pendure seu coração em um cometa e deixe voar..."

Na escuridão do bosque, suspendi a
tocha, iluminando com luz trêmula
e débil parte de mim. Acreditei ver pequenas figuras fugazes movendo-se
entre as
folhagens das árvores, escondendo-se entre as ramas dos arbustos
com espinhos,
debaixo dos cogumelos. Eu vi!... Um resplendor azulado desceu do céu.
E entre as
árvores, estava aquela criatura de pele branca e transparente, pálida
como a
imagem da lua refletida nas águas de um lago calmo. Era de
uma beleza sem fim.
Um perfume estranho de frutas silvestres se
desprendia desse ser,
inundando a atmosfera do bosque úmido. A luz da Cheia
iluminou o centro do
círculo de cogumelos onde o espectro foi pousar. Agitava suas asas
azuis
semi-transparentes sem cessar... De repente, uma neblina igualmente branca,
mas
espessa, flutuando solta no vale, subiu ao bosque, penetrou dentro do círculo,
inundou e desfigurou o ser e chegou até mim.
Sonhos de neblina assim me invadiram, entorpecendo
minha mente,
aprisionando minh'alma. E num delírio de êxtase, vi
a escuridão dos tempos sem
princípio nem fim, sombras que não logro alcançar.
Desesperada, começei a
perseguir o tempo que nem por um momento fez menção de parar...
Olhei para o
meu relógio sem ponteiros escondendo o verdadeiro tempo, sem revelar-me
hora,
dia ou ano deste meu momento, eterno e agora.
As figuras moviam-se como relâmpagos
-- e eu queria vê-las com
nitidez. Me aproximei lentamente, mas tudo o que eu recordo são
sonhos,
fragmentos de sonhos nebulosos que sempre retornam quando fecho meus olhos.
Em cada noite, eu vivo outras vidas e, a cada segundo, quando vou desfalecendo,
vivo noutro mundo, outros momentos sem saber de quem são. Quando
adormeço,
pode ser primavera ou outono, o sonho retorna... E carrego comigo um punhal
que
uso para rasgar a parede de vidro colorido, onde meu rosto se reflete
e meu corpo
me vem com formas de adulterada beleza.
Entretanto, toda vez que desperto, o sonho
se dissipa, volto a ser quem
fui e agora sou. Ao acordar, tenho a vista fraca e cansada,
já não vejo mais nada.
Apenas murmuro palavras desconexas e desconhecidas que saem ..........expontaneamente
de meus lábios.
Existe alguma coisa no bosque que grita e
me atrai. Não consigo resistir
e para lá me dirijo todas as noites... Sinto que o bosque
morre e não consigo parar
o seu sofrimento. Quando eu estou ali, ouço a canção
mais doce que é som do
silêncio feito de vento brincando nas folhas das árvores.
Outrora eu jamais ouvi o
som que é silêncio cristalino.
Assim, flutuando, vejo os meus pés
que nunca tocam o chão. Numa
floresta de duendes, tento escolher um príncipe e beijá-lo,
mas ele esconde seu
rosto ora entre árvores, ora imerso em neblina -- não
logro alcançá-lo! E mesmo
sem rosto, o príncipe se aproxima e me entrega uma vela que queima
e se derrete
em minhas mãos, transformando-se em um anel de ouro líquido.
Quando tento
colocar o anel em meu dedo, desperto e o sonho novamente se desfaz... E
a cada
noite, retorno ao mesmo sonho e vivo uma nova vida e estou em um lugar
que não
existe e nem nunca jamais existiu.
Isabel
Aguirre
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